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Equações de Maxwell

Formulação diferencial e integral das leis fundamentais do eletromagnetismo.

📖 Teoria & Conceitos ⚡ Simulações Interativas (5)

Equações de Maxwell

Formulação diferencial e integral das leis fundamentais do eletromagnetismo.

1. As equações de Maxwell como linguagem do cálculo vetorial

As equações de Maxwell constituem um sistema de equações diferenciais parciais que descreve a estrutura do campo eletromagnético. Entretanto, para compreendê-las rigorosamente, não basta memorizar quatro expressões: é necessário distinguir sua sintaxe matemática de sua semântica física.

A sintaxe informa:

  • quais objetos matemáticos aparecem;
  • quais operadores atuam sobre esses objetos;
  • qual é o domínio de integração;
  • quais orientações geométricas são adotadas;
  • quais grandezas são escalares e quais são vetoriais.

A semântica informa:

  • o que os campos representam fisicamente;
  • o que significa uma divergência positiva ou negativa;
  • o que significa a existência de um rotacional;
  • como cargas e correntes produzem campos;
  • como campos elétricos e magnéticos se acoplam dinamicamente.

Em termos abstratos, considere-se uma região espacial Ω⊆R3\Omega\subseteq\mathbb{R}^{3}Ω⊆R3 e o tempo t∈Rt\in\mathbb{R}t∈R. Os campos eletromagnéticos são aplicações vetoriais da forma

E⃗:Ω×R⟶R3,(r⃗,t)⟼E⃗(r⃗,t),(Eq. 1)\vec{E}:\Omega\times\mathbb{R}\longrightarrow\mathbb{R}^{3}, \qquad (\vec{r},t)\longmapsto \vec{E}(\vec{r},t), \qquad \text{(Eq. 1)}E:Ω×R⟶R3,(r,t)⟼E(r,t),(Eq. 1) B⃗:Ω×R⟶R3,(r⃗,t)⟼B⃗(r⃗,t).(Eq. 2)\vec{B}:\Omega\times\mathbb{R}\longrightarrow\mathbb{R}^{3}, \qquad (\vec{r},t)\longmapsto \vec{B}(\vec{r},t). \qquad \text{(Eq. 2)}B:Ω×R⟶R3,(r,t)⟼B(r,t).(Eq. 2)

A posição é representada pelo vetor

r⃗=xx⃗^+yy⃗^+zz⃗^,(Eq. 3)\vec{r}=x\hat{\vec{x}}+y\hat{\vec{y}}+z\hat{\vec{z}}, \qquad \text{(Eq. 3)}r=xx^+yy​^​+zz^,(Eq. 3)

em que x⃗^\hat{\vec{x}}x^, y⃗^\hat{\vec{y}}y​^​ e z⃗^\hat{\vec{z}}z^ são vetores unitários associados aos eixos cartesianos.


2. Objetos fundamentais da teoria eletromagnética

2.1. Campos vetoriais

Os quatro campos vetoriais fundamentais são:

E⃗(r⃗,t)campo eleˊtrico, em V/m,\vec{E}(\vec{r},t) \quad \text{campo elétrico, em } \mathrm{V/m},E(r,t)campo eleˊtrico, em V/m, D⃗(r⃗,t)densidade de fluxo eleˊtrico, em C/m2,\vec{D}(\vec{r},t) \quad \text{densidade de fluxo elétrico, em } \mathrm{C/m^2},D(r,t)densidade de fluxo eleˊtrico, em C/m2, B⃗(r⃗,t)densidade de fluxo magneˊtico, em T,\vec{B}(\vec{r},t) \quad \text{densidade de fluxo magnético, em } \mathrm{T},B(r,t)densidade de fluxo magneˊtico, em T, H⃗(r⃗,t)campo magneˊtico, em A/m.\vec{H}(\vec{r},t) \quad \text{campo magnético, em } \mathrm{A/m}.H(r,t)campo magneˊtico, em A/m.

Em coordenadas cartesianas, um campo vetorial possui a forma

E⃗=Exx⃗^+Eyy⃗^+Ezz⃗^,(Eq. 4)\vec{E} = E_x\hat{\vec{x}} + E_y\hat{\vec{y}} + E_z\hat{\vec{z}}, \qquad \text{(Eq. 4)}E=Ex​x^+Ey​y​^​+Ez​z^,(Eq. 4)

em que ExE_xEx​, EyE_yEy​ e EzE_zEz​ são campos escalares.

A sintaxe da Eq. 4 afirma que E⃗\vec{E}E é composto por três componentes escalares. Sua semântica afirma que, em cada ponto do espaço e em cada instante, existe uma direção e uma intensidade associadas à força elétrica por unidade de carga.


2.2. Fontes escalares e vetoriais

A densidade volumétrica de carga é um campo escalar:

ρ:Ω×R⟶R,ρ=ρ(r⃗,t),(Eq. 5)\rho:\Omega\times\mathbb{R}\longrightarrow\mathbb{R}, \qquad \rho=\rho(\vec{r},t), \qquad \text{(Eq. 5)}ρ:Ω×R⟶R,ρ=ρ(r,t),(Eq. 5)

medido em C/m3\mathrm{C/m^{3}}C/m3.

A densidade de corrente é um campo vetorial:

J⃗:Ω×R⟶R3,J⃗=J⃗(r⃗,t),(Eq. 6)\vec{J}:\Omega\times\mathbb{R}\longrightarrow\mathbb{R}^{3}, \qquad \vec{J}=\vec{J}(\vec{r},t), \qquad \text{(Eq. 6)}J:Ω×R⟶R3,J=J(r,t),(Eq. 6)

medido em A/m2\mathrm{A/m^{2}}A/m2.

Fisicamente:

  • ρ\rhoρ descreve quanto de carga existe por unidade de volume;
  • J⃗\vec{J}J descreve a quantidade e a direção do transporte de carga.

Em um meio condutor ôhmico isotrópico,

J⃗=σE⃗,(Eq. 7)\vec{J}=\sigma\vec{E}, \qquad \text{(Eq. 7)}J=σE,(Eq. 7)

em que σ\sigmaσ é a condutividade elétrica do material.


3. O operador vetorial ∇⃗\vec{\nabla}∇

3.1. Definição

O operador diferencial vetorial nabla é definido, em coordenadas cartesianas, por

∇⃗=x⃗^∂∂x+y⃗^∂∂y+z⃗^∂∂z.(Eq. 8)\vec{\nabla} = \hat{\vec{x}}\frac{\partial}{\partial x} + \hat{\vec{y}}\frac{\partial}{\partial y} + \hat{\vec{z}}\frac{\partial}{\partial z}. \qquad \text{(Eq. 8)}∇=x^∂x∂​+y​^​∂y∂​+z^∂z∂​.(Eq. 8)

A sintaxe da Eq. 8 se assemelha à de um vetor. Contudo, ∇⃗\vec{\nabla}∇ não é um vetor físico comum: trata-se de um operador diferencial vetorial.

Seu significado somente se completa quando se especifica sobre qual campo ele atua e qual operação algébrica será utilizada.


3.2. Gradiente

Quando ∇⃗\vec{\nabla}∇ atua sobre um campo escalar ϕ\phiϕ, obtém-se o gradiente:

grad⁡ϕ=∇⃗ϕ=∂ϕ∂xx⃗^+∂ϕ∂yy⃗^+∂ϕ∂zz⃗^.(Eq. 9)\operatorname{grad}\phi = \vec{\nabla}\phi = \frac{\partial\phi}{\partial x}\hat{\vec{x}} + \frac{\partial\phi}{\partial y}\hat{\vec{y}} + \frac{\partial\phi}{\partial z}\hat{\vec{z}}. \qquad \text{(Eq. 9)}gradϕ=∇ϕ=∂x∂ϕ​x^+∂y∂ϕ​y​^​+∂z∂ϕ​z^.(Eq. 9)

A sintaxe apresenta uma entrada escalar e uma saída vetorial:

escalar→  ∇⃗  vetor.\text{escalar}\xrightarrow{\;\vec{\nabla}\;}\text{vetor}.escalar∇​vetor.

A semântica é a seguinte: ∇⃗ϕ\vec{\nabla}\phi∇ϕ aponta na direção em que ϕ\phiϕ cresce mais rapidamente, e seu módulo representa a taxa máxima de crescimento espacial.

Na eletrostática, o campo elétrico é relacionado ao potencial elétrico VVV por

E⃗=−∇⃗V.(Eq. 10)\vec{E}=-\vec{\nabla}V. \qquad \text{(Eq. 10)}E=−∇V.(Eq. 10)

O sinal negativo indica que E⃗\vec{E}E aponta na direção de maior diminuição do potencial.


3.3. Divergência

Para um campo vetorial

A⃗=Axx⃗^+Ayy⃗^+Azz⃗^,\vec{A}=A_x\hat{\vec{x}}+A_y\hat{\vec{y}}+A_z\hat{\vec{z}},A=Ax​x^+Ay​y​^​+Az​z^,

a divergência é definida por

div⁡A⃗=∇⃗⋅A⃗=∂Ax∂x+∂Ay∂y+∂Az∂z.(Eq. 11)\operatorname{div}\vec{A} = \vec{\nabla}\cdot\vec{A} = \frac{\partial A_x}{\partial x} + \frac{\partial A_y}{\partial y} + \frac{\partial A_z}{\partial z}. \qquad \text{(Eq. 11)}divA=∇⋅A=∂x∂Ax​​+∂y∂Ay​​+∂z∂Az​​.(Eq. 11)

A sintaxe apresenta um produto escalar entre o operador ∇⃗\vec{\nabla}∇ e o campo A⃗\vec{A}A:

vetor→  ∇⃗⋅  escalar.\text{vetor}\xrightarrow{\;\vec{\nabla}\cdot\;}\text{escalar}.vetor∇⋅​escalar.

A divergência mede o fluxo líquido que emerge de uma vizinhança infinitesimal.

  • Se ∇⃗⋅A⃗>0\vec{\nabla}\cdot\vec{A}>0∇⋅A>0, o ponto comporta-se localmente como uma fonte.
  • Se ∇⃗⋅A⃗<0\vec{\nabla}\cdot\vec{A}<0∇⋅A<0, o ponto comporta-se localmente como um sumidouro.
  • Se ∇⃗⋅A⃗=0\vec{\nabla}\cdot\vec{A}=0∇⋅A=0, não existe produção líquida local do campo.

Formalmente,

∇⃗⋅A⃗=lim⁡ΔV→01ΔV∯∂(ΔV)A⃗⋅dS⃗.(Eq. 12)\vec{\nabla}\cdot\vec{A} = \lim_{\Delta V\to 0} \frac{1}{\Delta V} \oiint_{\partial(\Delta V)} \vec{A}\cdot d\vec{S}. \qquad \text{(Eq. 12)}∇⋅A=ΔV→0lim​ΔV1​∬​∂(ΔV)​A⋅dS.(Eq. 12)

Portanto, a divergência é o fluxo líquido por unidade de volume no limite infinitesimal.


3.4. Rotacional

O rotacional de A⃗\vec{A}A é definido por

rot⁡A⃗=∇⃗×A⃗.(Eq. 13)\operatorname{rot}\vec{A} = \vec{\nabla}\times\vec{A}. \qquad \text{(Eq. 13)}rotA=∇×A.(Eq. 13)

Em coordenadas cartesianas,

∇⃗×A⃗=∣x⃗^y⃗^z⃗^∂∂x∂∂y∂∂zAxAyAz∣.(Eq. 14)\vec{\nabla}\times\vec{A} = \begin{vmatrix} \hat{\vec{x}} & \hat{\vec{y}} & \hat{\vec{z}} \\[2mm] \dfrac{\partial}{\partial x} & \dfrac{\partial}{\partial y} & \dfrac{\partial}{\partial z} \\[2mm] A_x & A_y & A_z \end{vmatrix}. \qquad \text{(Eq. 14)}∇×A=​x^∂x∂​Ax​​y​^​∂y∂​Ay​​z^∂z∂​Az​​​.(Eq. 14)

Desenvolvendo o determinante,

∇⃗×A⃗=(∂Az∂y−∂Ay∂z)x⃗^+(∂Ax∂z−∂Az∂x)y⃗^+(∂Ay∂x−∂Ax∂y)z⃗^.(Eq. 15)\vec{\nabla}\times\vec{A} = \left( \frac{\partial A_z}{\partial y} - \frac{\partial A_y}{\partial z} \right)\hat{\vec{x}} + \left( \frac{\partial A_x}{\partial z} - \frac{\partial A_z}{\partial x} \right)\hat{\vec{y}} + \left( \frac{\partial A_y}{\partial x} - \frac{\partial A_x}{\partial y} \right)\hat{\vec{z}}. \qquad \text{(Eq. 15)}∇×A=(∂y∂Az​​−∂z∂Ay​​)x^+(∂z∂Ax​​−∂x∂Az​​)y​^​+(∂x∂Ay​​−∂y∂Ax​​)z^.(Eq. 15)

A sintaxe apresenta um produto vetorial:

vetor→  ∇⃗×  vetor.\text{vetor}\xrightarrow{\;\vec{\nabla}\times\;}\text{vetor}.vetor∇×​vetor.

A semântica do rotacional é a circulação local do campo. Seu módulo mede a intensidade da tendência de rotação, enquanto sua direção indica o eixo dessa circulação segundo a regra da mão direita.

Formalmente,

n⃗^⋅(∇⃗×A⃗)=lim⁡ΔS→01ΔS∮∂(ΔS)A⃗⋅dℓ⃗.(Eq. 16)\hat{\vec{n}}\cdot \left( \vec{\nabla}\times\vec{A} \right) = \lim_{\Delta S\to 0} \frac{1}{\Delta S} \oint_{\partial(\Delta S)} \vec{A}\cdot d\vec{\ell}. \qquad \text{(Eq. 16)}n^⋅(∇×A)=ΔS→0lim​ΔS1​∮∂(ΔS)​A⋅dℓ.(Eq. 16)

4. Geometria das integrais vetoriais

4.1. Elemento de linha

O elemento vetorial de linha é

dℓ⃗=dx x⃗^+dy y⃗^+dz z⃗^.(Eq. 17)d\vec{\ell} = dx\,\hat{\vec{x}} + dy\,\hat{\vec{y}} + dz\,\hat{\vec{z}}. \qquad \text{(Eq. 17)}dℓ=dxx^+dyy​^​+dzz^.(Eq. 17)

A integral

∫CA⃗⋅dℓ⃗\int_C \vec{A}\cdot d\vec{\ell}∫C​A⋅dℓ

mede a componente tangencial de A⃗\vec{A}A acumulada ao longo da curva CCC.

Quando CCC é uma curva fechada, escreve-se

∮CA⃗⋅dℓ⃗.\oint_C \vec{A}\cdot d\vec{\ell}.∮C​A⋅dℓ.

Essa integral recebe o nome de circulação.


4.2. Elemento de superfície

O elemento vetorial de superfície é

dS⃗=n⃗^ dS,(Eq. 18)d\vec{S}=\hat{\vec{n}}\,dS, \qquad \text{(Eq. 18)}dS=n^dS,(Eq. 18)

em que n⃗^\hat{\vec{n}}n^ é o vetor unitário normal à superfície.

A integral

∬SA⃗⋅dS⃗\iint_S \vec{A}\cdot d\vec{S}∬S​A⋅dS

mede o fluxo do campo A⃗\vec{A}A através da superfície SSS.

Se a superfície for fechada, utiliza-se

∯SA⃗⋅dS⃗.\oiint_S \vec{A}\cdot d\vec{S}.∬​S​A⋅dS.

4.3. Teorema da divergência

O teorema da divergência estabelece que

∭V(∇⃗⋅A⃗)dV=∯∂VA⃗⋅dS⃗.(Eq. 19)\iiint_V \left( \vec{\nabla}\cdot\vec{A} \right)dV = \oiint_{\partial V} \vec{A}\cdot d\vec{S}. \qquad \text{(Eq. 19)}∭V​(∇⋅A)dV=∬​∂V​A⋅dS.(Eq. 19)

O lado esquerdo descreve a soma de todas as fontes locais no volume. O lado direito descreve o fluxo líquido que atravessa a fronteira do volume.

Assim, o teorema conecta uma descrição local, baseada em derivadas, a uma descrição global, baseada em integrais.


4.4. Teorema de Stokes

O teorema de Stokes estabelece que

∬S(∇⃗×A⃗)⋅dS⃗=∮∂SA⃗⋅dℓ⃗.(Eq. 20)\iint_S \left( \vec{\nabla}\times\vec{A} \right)\cdot d\vec{S} = \oint_{\partial S} \vec{A}\cdot d\vec{\ell}. \qquad \text{(Eq. 20)}∬S​(∇×A)⋅dS=∮∂S​A⋅dℓ.(Eq. 20)

O lado esquerdo soma a rotação local do campo sobre a superfície. O lado direito mede a circulação total sobre a borda da superfície.

A orientação de dℓ⃗d\vec{\ell}dℓ e dS⃗d\vec{S}dS deve obedecer à regra da mão direita.


5. Sistema diferencial de Maxwell

Em um meio material, as equações de Maxwell na forma diferencial são

∇⃗⋅D⃗=ρ(Eq. 21)\boxed{ \vec{\nabla}\cdot\vec{D}=\rho } \qquad \text{(Eq. 21)}∇⋅D=ρ​(Eq. 21) ∇⃗⋅B⃗=0(Eq. 22)\boxed{ \vec{\nabla}\cdot\vec{B}=0 } \qquad \text{(Eq. 22)}∇⋅B=0​(Eq. 22) ∇⃗×E⃗=−∂B⃗∂t(Eq. 23)\boxed{ \vec{\nabla}\times\vec{E} = -\frac{\partial\vec{B}}{\partial t} } \qquad \text{(Eq. 23)}∇×E=−∂t∂B​​(Eq. 23) ∇⃗×H⃗=J⃗+∂D⃗∂t(Eq. 24)\boxed{ \vec{\nabla}\times\vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial\vec{D}}{\partial t} } \qquad \text{(Eq. 24)}∇×H=J+∂t∂D​​(Eq. 24)

Essas quatro equações podem ser classificadas em dois grupos.

As Eqs. 21 e 22 são equações de divergência. Elas descrevem fontes e fluxos.

As Eqs. 23 e 24 são equações de rotacional. Elas descrevem circulação e indução.


6. Lei de Gauss para o campo elétrico

6.1. Forma diferencial

∇⃗⋅D⃗=ρ.(Eq. 25)\vec{\nabla}\cdot\vec{D}=\rho. \qquad \text{(Eq. 25)}∇⋅D=ρ.(Eq. 25)

6.2. Sintaxe

O lado esquerdo é a divergência de um campo vetorial:

∇⃗⋅D⃗.\vec{\nabla}\cdot\vec{D}.∇⋅D.

Seu resultado é um escalar. Portanto, é sintaticamente compatível com ρ\rhoρ, que também é um campo escalar.

Em termos dimensionais,

[∇⃗⋅D⃗]=C/m2m=C/m3=[ρ].[\vec{\nabla}\cdot\vec{D}] = \frac{\mathrm{C/m^{2}}}{\mathrm{m}} = \mathrm{C/m^{3}} = [\rho].[∇⋅D]=mC/m2​=C/m3=[ρ].

A compatibilidade dimensional é uma exigência da sintaxe física da equação.

6.3. Semântica

A Eq. 25 afirma que a carga elétrica é uma fonte do campo D⃗\vec{D}D.

Onde existe densidade de carga positiva, as linhas de D⃗\vec{D}D tendem a emergir. Onde existe densidade de carga negativa, as linhas tendem a convergir.

Não se deve interpretar a divergência como “o campo está aumentando”. A divergência mede a expansão espacial líquida do campo, não sua simples variação de módulo.

6.4. Forma integral

Integrando a Eq. 25 sobre um volume VVV,

∭V∇⃗⋅D⃗ dV=∭Vρ dV.(Eq. 26)\iiint_V \vec{\nabla}\cdot\vec{D}\,dV = \iiint_V\rho\,dV. \qquad \text{(Eq. 26)}∭V​∇⋅DdV=∭V​ρdV.(Eq. 26)

Aplicando-se o teorema da divergência,

∯∂VD⃗⋅dS⃗=∭Vρ dV=Qint(Eq. 27)\boxed{ \oiint_{\partial V} \vec{D}\cdot d\vec{S} = \iiint_V \rho\,dV = Q_{\mathrm{int}} } \qquad \text{(Eq. 27)}∬​∂V​D⋅dS=∭V​ρdV=Qint​​(Eq. 27)

A semântica global é:

O fluxo elétrico líquido através de uma superfície fechada é igual à carga total contida em seu interior.

A Eq. 25 é local: vale ponto a ponto.

A Eq. 27 é global: relaciona uma região inteira à sua fronteira.

Lei de Gauss — campo elétrico

∇·E = ρ/ε₀ — uma carga pontual irradia um campo elétrico radial através de uma superfície gaussiana translúcida. Inverta o sinal da carga para transformar a fonte (divergência positiva) em sumidouro.

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7. Lei de Gauss para o magnetismo

7.1. Forma diferencial

∇⃗⋅B⃗=0.(Eq. 28)\vec{\nabla}\cdot\vec{B}=0. \qquad \text{(Eq. 28)}∇⋅B=0.(Eq. 28)

7.2. Sintaxe

A divergência de B⃗\vec{B}B é um escalar. O lado direito é o escalar zero.

A equação afirma que, em qualquer ponto regular do espaço, não existe densidade de fonte magnética.

7.3. Semântica

A Eq. 28 expressa a ausência observada de monopólos magnéticos isolados na eletrodinâmica clássica.

As linhas de B⃗\vec{B}B não começam nem terminam em pontos: formam curvas fechadas ou se estendem sem início ou fim dentro do domínio considerado.

Isso não significa que o campo magnético seja nulo. Significa apenas que ele é solenoidal, isto é, possui divergência nula.

7.4. Forma integral

Integrando-se sobre um volume VVV,

∯∂VB⃗⋅dS⃗=0(Eq. 29)\boxed{ \oiint_{\partial V} \vec{B}\cdot d\vec{S}=0 } \qquad \text{(Eq. 29)}∬​∂V​B⋅dS=0​(Eq. 29)

O fluxo magnético que entra em qualquer superfície fechada é exatamente compensado pelo fluxo magnético que sai.

Lei de Gauss — magnetismo

∇·B = 0 — um ímã de barra com polo norte (vermelho) e polo sul (azul). As linhas de campo magnético saem do N, arqueiam pelo espaço, entram no S e fecham por dentro do ímã. Por serem laços fechados — sem início nem fim — não existem monopólos magnéticos isolados.

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8. Lei de Faraday

8.1. Forma diferencial

∇⃗×E⃗=−∂B⃗∂t.(Eq. 30)\vec{\nabla}\times\vec{E} = -\frac{\partial\vec{B}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 30)}∇×E=−∂t∂B​.(Eq. 30)

8.2. Sintaxe

O lado esquerdo é o rotacional de E⃗\vec{E}E, portanto é um vetor.

O lado direito é a derivada temporal do vetor B⃗\vec{B}B, também resultando em um vetor. A igualdade é, portanto, vetorial:

(∇⃗×E⃗)x=−∂Bx∂t,(∇⃗×E⃗)y=−∂By∂t,(∇⃗×E⃗)z=−∂Bz∂t.\begin{aligned} \left(\vec{\nabla}\times\vec{E}\right)_x &= -\frac{\partial B_x}{\partial t}, \\ \left(\vec{\nabla}\times\vec{E}\right)_y &= -\frac{\partial B_y}{\partial t}, \\ \left(\vec{\nabla}\times\vec{E}\right)_z &= -\frac{\partial B_z}{\partial t}. \end{aligned}(∇×E)x​(∇×E)y​(∇×E)z​​=−∂t∂Bx​​,=−∂t∂By​​,=−∂t∂Bz​​.​

A Eq. 30 representa, na realidade, três equações escalares acopladas.

8.3. Semântica

Um campo magnético variável no tempo produz um campo elétrico com circulação.

Esse campo elétrico não é necessariamente produzido por cargas estáticas. Trata-se de um campo elétrico induzido, cujas linhas podem formar curvas fechadas.

O sinal negativo codifica a lei de Lenz: o campo induzido tende a se opor à variação do fluxo magnético que o produziu.

8.4. Forma integral

Integrando-se sobre uma superfície fixa SSS,

∬S(∇⃗×E⃗)⋅dS⃗=−∬S∂B⃗∂t⋅dS⃗.(Eq. 31)\iint_S \left( \vec{\nabla}\times\vec{E} \right)\cdot d\vec{S} = - \iint_S \frac{\partial\vec{B}}{\partial t} \cdot d\vec{S}. \qquad \text{(Eq. 31)}∬S​(∇×E)⋅dS=−∬S​∂t∂B​⋅dS.(Eq. 31)

Aplicando-se o teorema de Stokes,

∮∂SE⃗⋅dℓ⃗=−ddt∬SB⃗⋅dS⃗(Eq. 32)\boxed{ \oint_{\partial S} \vec{E}\cdot d\vec{\ell} = - \frac{d}{dt} \iint_S \vec{B}\cdot d\vec{S} } \qquad \text{(Eq. 32)}∮∂S​E⋅dℓ=−dtd​∬S​B⋅dS​(Eq. 32)

Definindo-se o fluxo magnético por

ΦB=∬SB⃗⋅dS⃗,(Eq. 33)\Phi_B = \iint_S \vec{B}\cdot d\vec{S}, \qquad \text{(Eq. 33)}ΦB​=∬S​B⋅dS,(Eq. 33)

obtém-se

E=∮∂SE⃗⋅dℓ⃗=−dΦBdt.(Eq. 34)\mathcal{E} = \oint_{\partial S} \vec{E}\cdot d\vec{\ell} = -\frac{d\Phi_B}{dt}. \qquad \text{(Eq. 34)}E=∮∂S​E⋅dℓ=−dtdΦB​​.(Eq. 34)

A grandeza E\mathcal{E}E é a força eletromotriz induzida.

Lei de Faraday

∇×E = −∂B/∂t — o fluxo magnético variável no centro induz um campo elétrico circulante. O sentido da circulação inverte com o sinal de dB/dt (lei de Lenz).

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9. Lei de Ampère-Maxwell

9.1. Forma diferencial

∇⃗×H⃗=J⃗+∂D⃗∂t.(Eq. 35)\vec{\nabla}\times\vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial\vec{D}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 35)}∇×H=J+∂t∂D​.(Eq. 35)

9.2. Sintaxe

O lado esquerdo é o rotacional de H⃗\vec{H}H, sendo, portanto, vetorial.

No lado direito aparecem duas densidades de corrente:

J⃗\vec{J}J

é a densidade de corrente de condução, enquanto

∂D⃗∂t\frac{\partial\vec{D}}{\partial t}∂t∂D​

é denominada densidade de corrente de deslocamento.

Ambas possuem unidade A/m2\mathrm{A/m^{2}}A/m2.

De fato,

[∂D⃗∂t]=C/m2s=A/m2.\left[ \frac{\partial\vec{D}}{\partial t} \right] = \frac{\mathrm{C/m^{2}}}{\mathrm{s}} = \mathrm{A/m^{2}}.[∂t∂D​]=sC/m2​=A/m2.

9.3. Semântica

A Eq. 35 afirma que o campo magnético circulante pode ser produzido por:

  1. transporte efetivo de cargas, representado por J⃗\vec{J}J;
  2. variação temporal do campo elétrico, representada por ∂D⃗/∂t\partial\vec{D}/\partial t∂D/∂t.

O segundo termo foi introduzido por Maxwell para tornar a lei de Ampère compatível com a conservação da carga.

Ele também estabelece uma profunda simetria dinâmica:

  • um campo magnético variável produz circulação de E⃗\vec{E}E;
  • um campo elétrico variável produz circulação de H⃗\vec{H}H.

9.4. Forma integral

Aplicando-se o teorema de Stokes,

∮∂SH⃗⋅dℓ⃗=∬SJ⃗⋅dS⃗+ddt∬SD⃗⋅dS⃗(Eq. 36)\boxed{ \oint_{\partial S} \vec{H}\cdot d\vec{\ell} = \iint_S \vec{J}\cdot d\vec{S} + \frac{d}{dt} \iint_S \vec{D}\cdot d\vec{S} } \qquad \text{(Eq. 36)}∮∂S​H⋅dℓ=∬S​J⋅dS+dtd​∬S​D⋅dS​(Eq. 36)

Definindo-se

I=∬SJ⃗⋅dS⃗,(Eq. 37)I = \iint_S \vec{J}\cdot d\vec{S}, \qquad \text{(Eq. 37)}I=∬S​J⋅dS,(Eq. 37)

e

ΦD=∬SD⃗⋅dS⃗,(Eq. 38)\Phi_D = \iint_S \vec{D}\cdot d\vec{S}, \qquad \text{(Eq. 38)}ΦD​=∬S​D⋅dS,(Eq. 38)

obtém-se

∮∂SH⃗⋅dℓ⃗=I+dΦDdt.(Eq. 39)\oint_{\partial S} \vec{H}\cdot d\vec{\ell} = I+\frac{d\Phi_D}{dt}. \qquad \text{(Eq. 39)}∮∂S​H⋅dℓ=I+dtdΦD​​.(Eq. 39)
Lei de Ampère-Maxwell

∇×B = μ₀J + μ₀ε₀ ∂E/∂t — um solenoide percorrido por corrente (vermelho) produz um campo magnético axial uniforme no seu interior (azul).

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10. Relações constitutivas

As equações de Maxwell não estão completas para um problema material até que sejam especificadas as relações entre os campos.

Em um meio linear, isotrópico e homogêneo,

D⃗=εE⃗,(Eq. 40)\vec{D}=\varepsilon\vec{E}, \qquad \text{(Eq. 40)}D=εE,(Eq. 40) B⃗=μH⃗,(Eq. 41)\vec{B}=\mu\vec{H}, \qquad \text{(Eq. 41)}B=μH,(Eq. 41) J⃗=σE⃗.(Eq. 42)\vec{J}=\sigma\vec{E}. \qquad \text{(Eq. 42)}J=σE.(Eq. 42)

Os parâmetros são:

  • ε\varepsilonε: permissividade elétrica;
  • μ\muμ: permeabilidade magnética;
  • σ\sigmaσ: condutividade elétrica.

No vácuo,

D⃗=ε0E⃗,B⃗=μ0H⃗.(Eq. 43)\vec{D}=\varepsilon_0\vec{E}, \qquad \vec{B}=\mu_0\vec{H}. \qquad \text{(Eq. 43)}D=ε0​E,B=μ0​H.(Eq. 43)

As equações de Maxwell no vácuo podem, então, ser escritas como

∇⃗⋅E⃗=ρε0,(Eq. 44)\vec{\nabla}\cdot\vec{E} = \frac{\rho}{\varepsilon_0}, \qquad \text{(Eq. 44)}∇⋅E=ε0​ρ​,(Eq. 44) ∇⃗⋅B⃗=0,(Eq. 45)\vec{\nabla}\cdot\vec{B}=0, \qquad \text{(Eq. 45)}∇⋅B=0,(Eq. 45) ∇⃗×E⃗=−∂B⃗∂t,(Eq. 46)\vec{\nabla}\times\vec{E} = -\frac{\partial\vec{B}}{\partial t}, \qquad \text{(Eq. 46)}∇×E=−∂t∂B​,(Eq. 46) ∇⃗×B⃗=μ0J⃗+μ0ε0∂E⃗∂t.(Eq. 47)\vec{\nabla}\times\vec{B} = \mu_0\vec{J} + \mu_0\varepsilon_0 \frac{\partial\vec{E}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 47)}∇×B=μ0​J+μ0​ε0​∂t∂E​.(Eq. 47)

11. Conservação da carga como consequência estrutural

A conservação da carga não é uma hipótese externa desconectada das equações de Maxwell. Ela está contida na estrutura da lei de Ampère-Maxwell.

Parte-se de

∇⃗×H⃗=J⃗+∂D⃗∂t.(Eq. 48)\vec{\nabla}\times\vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial\vec{D}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 48)}∇×H=J+∂t∂D​.(Eq. 48)

Aplica-se a divergência aos dois lados:

∇⃗⋅(∇⃗×H⃗)=∇⃗⋅J⃗+∂∂t(∇⃗⋅D⃗).(Eq. 49)\vec{\nabla}\cdot \left( \vec{\nabla}\times\vec{H} \right) = \vec{\nabla}\cdot\vec{J} + \frac{\partial}{\partial t} \left( \vec{\nabla}\cdot\vec{D} \right). \qquad \text{(Eq. 49)}∇⋅(∇×H)=∇⋅J+∂t∂​(∇⋅D).(Eq. 49)

Utiliza-se a identidade vetorial

∇⃗⋅(∇⃗×A⃗)=0.(Eq. 50)\vec{\nabla}\cdot \left( \vec{\nabla}\times\vec{A} \right) =0. \qquad \text{(Eq. 50)}∇⋅(∇×A)=0.(Eq. 50)

Como

∇⃗⋅D⃗=ρ,\vec{\nabla}\cdot\vec{D}=\rho,∇⋅D=ρ,

obtém-se

0=∇⃗⋅J⃗+∂ρ∂t.0 = \vec{\nabla}\cdot\vec{J} + \frac{\partial\rho}{\partial t}.0=∇⋅J+∂t∂ρ​.

Portanto,

∂ρ∂t+∇⃗⋅J⃗=0(Eq. 51)\boxed{ \frac{\partial\rho}{\partial t} + \vec{\nabla}\cdot\vec{J} = 0 } \qquad \text{(Eq. 51)}∂t∂ρ​+∇⋅J=0​(Eq. 51)

Essa é a equação da continuidade.

Sua semântica é direta:

  • se a divergência de J⃗\vec{J}J é positiva, mais carga sai do ponto do que entra;
  • consequentemente, a densidade de carga local diminui;
  • se a divergência de J⃗\vec{J}J é negativa, há acúmulo local de carga.

A Eq. 51 representa uma lei local de conservação.


12. A identidade do duplo rotacional

Uma identidade central do cálculo vetorial é

∇⃗×(∇⃗×A⃗)=∇⃗(∇⃗⋅A⃗)−∇2A⃗.(Eq. 52)\vec{\nabla}\times \left( \vec{\nabla}\times\vec{A} \right) = \vec{\nabla} \left( \vec{\nabla}\cdot\vec{A} \right) - \nabla^{2}\vec{A}. \qquad \text{(Eq. 52)}∇×(∇×A)=∇(∇⋅A)−∇2A.(Eq. 52)

O operador laplaciano vetorial é

∇2A⃗=∇2Ax x⃗^+∇2Ay y⃗^+∇2Az z⃗^,(Eq. 53)\nabla^{2}\vec{A} = \nabla^{2}A_x\,\hat{\vec{x}} + \nabla^{2}A_y\,\hat{\vec{y}} + \nabla^{2}A_z\,\hat{\vec{z}}, \qquad \text{(Eq. 53)}∇2A=∇2Ax​x^+∇2Ay​y​^​+∇2Az​z^,(Eq. 53)

em que

∇2=∂2∂x2+∂2∂y2+∂2∂z2.(Eq. 54)\nabla^{2} = \frac{\partial^{2}}{\partial x^{2}} + \frac{\partial^{2}}{\partial y^{2}} + \frac{\partial^{2}}{\partial z^{2}}. \qquad \text{(Eq. 54)}∇2=∂x2∂2​+∂y2∂2​+∂z2∂2​.(Eq. 54)

A Eq. 52 é essencial para demonstrar que as equações de Maxwell admitem ondas eletromagnéticas.


13. Dedução da equação de onda eletromagnética

Considere-se uma região sem cargas, sem correntes e preenchida por um meio homogêneo, linear e não condutor:

ρ=0,J⃗=0⃗,σ=0.\rho=0, \qquad \vec{J}=\vec{0}, \qquad \sigma=0.ρ=0,J=0,σ=0.

As equações relevantes são

∇⃗×E⃗=−μ∂H⃗∂t,(Eq. 55)\vec{\nabla}\times\vec{E} = -\mu\frac{\partial\vec{H}}{\partial t}, \qquad \text{(Eq. 55)}∇×E=−μ∂t∂H​,(Eq. 55) ∇⃗×H⃗=ε∂E⃗∂t.(Eq. 56)\vec{\nabla}\times\vec{H} = \varepsilon\frac{\partial\vec{E}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 56)}∇×H=ε∂t∂E​.(Eq. 56)

Aplica-se o rotacional à Eq. 55:

∇⃗×(∇⃗×E⃗)=−μ∂∂t(∇⃗×H⃗).(Eq. 57)\vec{\nabla}\times \left( \vec{\nabla}\times\vec{E} \right) = -\mu \frac{\partial}{\partial t} \left( \vec{\nabla}\times\vec{H} \right). \qquad \text{(Eq. 57)}∇×(∇×E)=−μ∂t∂​(∇×H).(Eq. 57)

Substituindo-se a Eq. 56,

∇⃗×(∇⃗×E⃗)=−με∂2E⃗∂t2.(Eq. 58)\vec{\nabla}\times \left( \vec{\nabla}\times\vec{E} \right) = -\mu\varepsilon \frac{\partial^{2}\vec{E}}{\partial t^{2}}. \qquad \text{(Eq. 58)}∇×(∇×E)=−με∂t2∂2E​.(Eq. 58)

Utilizando-se a identidade do duplo rotacional,

∇⃗(∇⃗⋅E⃗)−∇2E⃗=−με∂2E⃗∂t2.(Eq. 59)\vec{\nabla} \left( \vec{\nabla}\cdot\vec{E} \right) - \nabla^{2}\vec{E} = -\mu\varepsilon \frac{\partial^{2}\vec{E}}{\partial t^{2}}. \qquad \text{(Eq. 59)}∇(∇⋅E)−∇2E=−με∂t2∂2E​.(Eq. 59)

Como ρ=0\rho=0ρ=0,

∇⃗⋅E⃗=0.\vec{\nabla}\cdot\vec{E}=0.∇⋅E=0.

Logo,

∇2E⃗−με∂2E⃗∂t2=0⃗(Eq. 60)\boxed{ \nabla^{2}\vec{E} - \mu\varepsilon \frac{\partial^{2}\vec{E}}{\partial t^{2}} = \vec{0} } \qquad \text{(Eq. 60)}∇2E−με∂t2∂2E​=0​(Eq. 60)

Analogamente,

∇2H⃗−με∂2H⃗∂t2=0⃗(Eq. 61)\boxed{ \nabla^{2}\vec{H} - \mu\varepsilon \frac{\partial^{2}\vec{H}}{\partial t^{2}} = \vec{0} } \qquad \text{(Eq. 61)}∇2H−με∂t2∂2H​=0​(Eq. 61)

A forma geral de uma equação de onda é

∇2Ψ⃗−1v2∂2Ψ⃗∂t2=0⃗.(Eq. 62)\nabla^{2}\vec{\Psi} - \frac{1}{v^{2}} \frac{\partial^{2}\vec{\Psi}}{\partial t^{2}} = \vec{0}. \qquad \text{(Eq. 62)}∇2Ψ−v21​∂t2∂2Ψ​=0.(Eq. 62)

Comparando-se as equações, obtém-se

v=1με(Eq. 63)\boxed{ v=\frac{1}{\sqrt{\mu\varepsilon}} } \qquad \text{(Eq. 63)}v=με​1​​(Eq. 63)

No vácuo,

c=1μ0ε0(Eq. 64)\boxed{ c=\frac{1}{\sqrt{\mu_0\varepsilon_0}} } \qquad \text{(Eq. 64)}c=μ0​ε0​​1​​(Eq. 64)

Esse resultado levou à identificação da luz como uma onda eletromagnética.

Onda eletromagnética plana

E (vermelho) e B (azul) oscilam em fase, perpendiculares entre si e à direção de propagação. O vetor de Poynting S = E×B (âmbar) aponta no sentido de propagação (+z), indicando o fluxo de energia. Corte destacado mostra a tríade instantânea E⊥B⊥S co-localizada com o gizmo acadêmico (E∥x̂, B∥ŷ, S∥ẑ).

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14. Estrutura geométrica de uma onda plana

Considere-se uma onda plana propagando-se na direção do vetor de onda k⃗\vec{k}k. No regime harmônico, pode-se escrever

E⃗(r⃗,t)=Re⁡{E⃗0ej(k⃗⋅r⃗−ωt)}.(Eq. 65)\vec{E}(\vec{r},t) = \operatorname{Re} \left\{ \vec{E}_0 e^{j(\vec{k}\cdot\vec{r}-\omega t)} \right\}. \qquad \text{(Eq. 65)}E(r,t)=Re{E0​ej(k⋅r−ωt)}.(Eq. 65)

A condição

∇⃗⋅E⃗=0\vec{\nabla}\cdot\vec{E}=0∇⋅E=0

implica

k⃗⋅E⃗0=0.(Eq. 66)\vec{k}\cdot\vec{E}_0=0. \qquad \text{(Eq. 66)}k⋅E0​=0.(Eq. 66)

Portanto, o campo elétrico é perpendicular à direção de propagação.

Do mesmo modo,

k⃗⋅H⃗0=0.(Eq. 67)\vec{k}\cdot\vec{H}_0=0. \qquad \text{(Eq. 67)}k⋅H0​=0.(Eq. 67)

Além disso,

H⃗=1ηk⃗^×E⃗,(Eq. 68)\vec{H} = \frac{1}{\eta} \hat{\vec{k}}\times\vec{E}, \qquad \text{(Eq. 68)}H=η1​k^×E,(Eq. 68)

em que

η=με(Eq. 69)\eta=\sqrt{\frac{\mu}{\varepsilon}} \qquad \text{(Eq. 69)}η=εμ​​(Eq. 69)

é a impedância intrínseca do meio.

Assim,

E⃗⊥H⃗,E⃗⊥k⃗,H⃗⊥k⃗.\vec{E}\perp\vec{H}, \qquad \vec{E}\perp\vec{k}, \qquad \vec{H}\perp\vec{k}.E⊥H,E⊥k,H⊥k.

A tríade E⃗\vec{E}E, H⃗\vec{H}H e k⃗\vec{k}k forma um sistema orientado pela regra da mão direita.


15. Condições de fronteira

Quando os campos atravessam a interface entre dois meios, suas componentes não variam arbitrariamente. As equações de Maxwell impõem condições de fronteira.

Se n⃗^\hat{\vec{n}}n^ aponta do meio 1 para o meio 2, então

n⃗^⋅(D⃗2−D⃗1)=ρs,(Eq. 70)\hat{\vec{n}}\cdot \left( \vec{D}_2-\vec{D}_1 \right) = \rho_s, \qquad \text{(Eq. 70)}n^⋅(D2​−D1​)=ρs​,(Eq. 70) n⃗^⋅(B⃗2−B⃗1)=0,(Eq. 71)\hat{\vec{n}}\cdot \left( \vec{B}_2-\vec{B}_1 \right) = 0, \qquad \text{(Eq. 71)}n^⋅(B2​−B1​)=0,(Eq. 71) n⃗^×(E⃗2−E⃗1)=0⃗,(Eq. 72)\hat{\vec{n}}\times \left( \vec{E}_2-\vec{E}_1 \right) = \vec{0}, \qquad \text{(Eq. 72)}n^×(E2​−E1​)=0,(Eq. 72) n⃗^×(H⃗2−H⃗1)=J⃗s.(Eq. 73)\hat{\vec{n}}\times \left( \vec{H}_2-\vec{H}_1 \right) = \vec{J}_s. \qquad \text{(Eq. 73)}n^×(H2​−H1​)=Js​.(Eq. 73)

Aqui:

  • ρs\rho_sρs​ é a densidade superficial de carga;
  • J⃗s\vec{J}_sJs​ é a densidade superficial de corrente.

As condições normais decorrem das equações de divergência. As condições tangenciais decorrem das equações de rotacional.


16. Sintaxe e semântica resumidas

ExpressãoTipo de entradaTipo de saídaSignificado
∇⃗ϕ\vec{\nabla}\phi∇ϕescalarvetordireção de maior crescimento de ϕ\phiϕ
∇⃗⋅A⃗\vec{\nabla}\cdot\vec{A}∇⋅Avetorescalardensidade local de fonte ou sumidouro
∇⃗×A⃗\vec{\nabla}\times\vec{A}∇×Avetorvetorcirculação local e eixo de rotação
∫CA⃗⋅dℓ⃗\int_C\vec{A}\cdot d\vec{\ell}∫C​A⋅dℓcampo e curvaescalarcirculação ou trabalho ao longo da curva
∬SA⃗⋅dS⃗\iint_S\vec{A}\cdot d\vec{S}∬S​A⋅dScampo e superfícieescalarfluxo através da superfície
∂A⃗/∂t\partial\vec{A}/\partial t∂A/∂tcampo vetorialvetortaxa de variação temporal local

As equações de Maxwell podem, então, ser lidas da seguinte maneira:

∇⃗⋅D⃗=ρ\vec{\nabla}\cdot\vec{D}=\rho∇⋅D=ρ

As cargas elétricas são fontes locais do fluxo elétrico.

∇⃗⋅B⃗=0\vec{\nabla}\cdot\vec{B}=0∇⋅B=0

O campo magnético não possui fontes ou sumidouros isolados.

∇⃗×E⃗=−∂B⃗∂t\vec{\nabla}\times\vec{E} = -\frac{\partial\vec{B}}{\partial t}∇×E=−∂t∂B​

A variação temporal do campo magnético produz circulação do campo elétrico.

∇⃗×H⃗=J⃗+∂D⃗∂t\vec{\nabla}\times\vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial\vec{D}}{\partial t}∇×H=J+∂t∂D​

Correntes elétricas e campos elétricos variáveis produzem circulação do campo magnético.

17. Síntese conceitual

As equações de Maxwell apresentam uma arquitetura matemática precisa:

  1. as equações de divergência descrevem a relação entre campos e fontes;
  2. as equações de rotacional descrevem o acoplamento dinâmico entre os campos;
  3. os teoremas da divergência e de Stokes conectam descrições locais e globais;
  4. as relações constitutivas conectam os campos ao comportamento dos materiais;
  5. a conservação da carga emerge da consistência interna do sistema;
  6. a equação de onda emerge do acoplamento entre E⃗\vec{E}E e H⃗\vec{H}H.

A ideia central pode ser condensada no seguinte ciclo causal:

∂B⃗∂t⟶∇⃗×E⃗⟶∂D⃗∂t⟶∇⃗×H⃗⟶∂B⃗∂t.(Eq. 74)\frac{\partial\vec{B}}{\partial t} \longrightarrow \vec{\nabla}\times\vec{E} \longrightarrow \frac{\partial\vec{D}}{\partial t} \longrightarrow \vec{\nabla}\times\vec{H} \longrightarrow \frac{\partial\vec{B}}{\partial t}. \qquad \text{(Eq. 74)}∂t∂B​⟶∇×E⟶∂t∂D​⟶∇×H⟶∂t∂B​.(Eq. 74)

Esse encadeamento permite que perturbações eletromagnéticas se sustentem e se propaguem mesmo em uma região sem cargas e sem correntes. É precisamente essa estrutura que dá origem às ondas eletromagnéticas e, consequentemente, à luz.

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