Semicondutores e a junção PN
A base física mínima para compreender diodos, transistores BJT e MOSFET.
Antes de analisar um amplificador, precisamos de uma ideia simples: em um semicondutor, a quantidade e o movimento dos portadores de carga podem ser controlados. Diodos, transistores bipolares e MOSFETs exploram esse controle de formas diferentes.
Objetivos
Ao terminar este capítulo, você deverá conseguir:
- distinguir semicondutor intrínseco de semicondutor dopado;
- identificar portadores majoritários em materiais tipo N e tipo P;
- explicar a formação da região de depleção em uma junção PN;
- relacionar polarização direta e reversa com a corrente do diodo;
- reconhecer por que a junção PN reaparece na análise do BJT.
Do material puro ao material dopado
O silício possui quatro elétrons de valência. Em um cristal ideal, esses elétrons participam de ligações covalentes. A energia térmica pode romper uma ligação e criar simultaneamente:
- um elétron livre, capaz de se deslocar pela rede;
- uma lacuna, que representa a ausência de um elétron e se comporta como uma carga positiva móvel.
No silício intrínseco, elétrons e lacunas aparecem em quantidades iguais. A dopagem altera esse equilíbrio:
| Material | Impureza típica | Portador majoritário | Portador minoritário |
|---|---|---|---|
| Tipo N | doadora, como fósforo | elétron | lacuna |
| Tipo P | aceitadora, como boro | lacuna | elétron |
As letras N e P indicam o tipo de portador majoritário; não significam que o cristal inteiro tenha carga elétrica líquida.
Formação da junção PN
Quando materiais P e N são colocados em contato, elétrons difundem-se do lado N para o lado P e lacunas difundem-se no sentido oposto. Próximo à interface, esses portadores se recombinam. Permanecem íons fixos que formam uma região de depleção, pobre em portadores móveis.
Os íons criam um campo elétrico interno. Em equilíbrio, esse campo se opõe à difusão adicional. A largura da região de depleção e a barreira de potencial mudam quando aplicamos uma tensão externa.
Polarização direta
Com o lado P em potencial maior que o lado N, a barreira diminui e a corrente cresce rapidamente. Para um diodo de silício em correntes usuais de bancada, uma queda entre aproximadamente 0,6 V e 0,8 V é comum — não existe, porém, uma queda universal e perfeitamente constante de 0,7 V.
Polarização reversa
Com o lado P em potencial menor, a região de depleção aumenta. Resta uma corrente reversa pequena até que se alcance a região de ruptura. A tensão de ruptura depende do dispositivo e não deve ser confundida com operação normal.
Equação de Shockley
Um modelo útil para a corrente do diodo é
em que:
- é a corrente de saturação reversa;
- é o fator de idealidade;
- é a tensão térmica, aproximadamente a .
O crescimento exponencial explica por que uma pequena variação de tensão pode produzir grande variação de corrente. Mais adiante, a linearização dessa mesma exponencial originará a transcondutância do BJT.
Arraste o ponto de operação e observe a escala da corrente em diferentes regiões.
Modelo não é componente
A equação de Shockley é um modelo. Resistência série, temperatura, ruptura e efeitos de alta corrente fazem um diodo real se afastar da curva ideal.
Três modelos para três perguntas
Não há um único modelo correto para todas as situações:
- Diodo ideal: útil para descobrir rapidamente quais ramos conduzem.
- Queda constante: útil em cálculos aproximados, usando por exemplo .
- Modelo exponencial: necessário para estudar variações de corrente, temperatura e pequenos sinais.
Escolher o modelo é parte da solução. Um cálculo detalhado com hipóteses inadequadas não é mais confiável que uma boa aproximação bem justificada.
Relação com BJT e MOSFET
O BJT contém duas junções PN e sua corrente de coletor depende exponencialmente de . Por isso, temperatura e polarização são centrais em amplificadores bipolares.
No MOSFET, o terminal de porta é isolado por óxido e controla um canal por campo elétrico. A física é diferente, mas a estratégia de circuitos será a mesma: estabelecer um ponto de operação e linearizar o dispositivo ao redor desse ponto.
Verificação rápida
- Por que um material tipo N continua eletricamente neutro?
- O que acontece com a região de depleção na polarização direta?
- Por que a aproximação de 0,7 V não deve ser tratada como uma constante física exata?
Respostas
- A dopagem acrescenta portadores e íons fixos em quantidades que preservam a neutralidade macroscópica.
- A região de depleção estreita e a barreira efetiva diminui.
- A queda depende da corrente, temperatura, material e construção do diodo.
No próximo capítulo, a junção PN será usada para converter sinais alternados em uma tensão unidirecional.